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- Um museu no país das idéias audazes |
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A
história do surgimento do museu de arte mais importante da
América Latina poderia ser o roteiro de um filme cujos temas
fossem idealismo e sucesso. Tudo começou quando Assis Chateaubriand,
advogado, jornalista e empresário dono de uma rede de jornais,
revistas e rádio, conheceu Pietro Maria Bardi, um marchand
italiano recém chegado ao Rio de Janeiro.
Corria ainda o ano de 1946. Bardi organizara uma mostra de pintura
italiana que recebia a visita de Chateaubriand. Foram apresentados
e, na mesma noite, o empresário, então conhecido como
"rei da comunicação", comentou o desejo
de criar um museu de arte no Brasil.
Pouco tempo depois, num jantar oferecido por Chateubriand, este
fez a Bardi o convite para que dirigisse o empreendimento. Tinha
início uma parceria com pouquíssimas divergências.
Uma das únicas foi a respeito do nome do museu: Museu de
Arte Antiga e Moderna para Chateaubriand, e Museu de Arte para Bardi.
Argumentando que "arte é uma só", o marchand
vence a discussão. Está criado o MASP.
Decide-se que o museu será em São Paulo - cidade que
vivia na época a prosperidade trazida pela cafeicultura.
O prédio que abrigaria a sede dos Diários Associados,
principal jornal de Chateaubriand, está em construção
e surge a idéia de ocupar um de seus andares com o museu.
Numa visita à obra, Chateaubriand apresenta Bardi ao seu
pessoal: "Aqui, neste espaço, será inaugurado
um museu. Este é o professor Bardi, seu diretor". Bardi
carregará para o resto de seus dias o título ganho
nessa tarde.
Inaugura-se, a 2 de outubro de 1947, o Museu de Arte de São
Paulo - MASP. Lina Bo Bardi é, desde o primeiro momento,
responsável pelo projeto arquitetônico do museu que,
a princípio, ocupa a área de 1000 metros quadrados
no segundo andar do edifício dos Diários Associados,
na 7 de Abril, centro de São Paulo. O acervo contava ainda
com poucas peças e havia duas exposições temporárias:
uma Série Bíblica de Cândido Portinari e outra
com telas do pintor italiano Ernesto De Fiori.
A proposta era realizar exposições periódicas,
promover os aspectos didáticos da arte com cursos e conferências
e também abrir escolas sobre assuntos pouco difundidos. Bardi
queria criar um "museu vivo" e encontrou no Brasil o cenário
perfeito para seu objetivo: "Eu venho da Europa. Lá,
os museus são instalados em edifícios históricos
e quando são construídos novos, a tarefa é
confiada a ruminadores de velhos estilos arquitetônicos, com
a intenção sádica de fazer nascer morto um
edifício que deve conservar coisas mortas. Assim, na minha
opinião, os americanos serão verdadeiramente os primeiros
a compreender a função educativa dos novos museus.
O Museu de Arte de São Paulo também será um
deles. Parece-me que no Brasil nos damos conta de que as idéias
audazes não são utopias, enquanto, ao contrário,
as utopias não são nunca audazes".
Um exemplo de que Bardi conseguiu cumprir seu ousado projeto foi
o sucesso de todas as escolas que integraram o MASP: a de gravura,
pintura, desenho industrial, escultura, ecologia, fotografia, cinema,
jardinagem, teatro, dança e até moda.
Para formar a histórica pinacoteca, Bardi, já naturalizado
brasileiro, voltou a uma Europa arrasada no pós-guerra para
garimpar obras, respaldado pelo prestígio financeiro de Chateaubriand
e pelo seu próprio e apuradíssimo faro de expert em
arte.
De 1947 a 1953, comprou preciosidades a preços baixíssimos,
como todos os 73 bronzes de uma série do escultor francês
Degas, arrematados por US$ 45 mil - hoje, apenas uma das peças,
a Bailarina, vale US$ 400 mil -, além das telas O Escolar,
de Van Gogh, e O Conde-Duque de Olivares, de Velázquez, adquiridas
por US$ 40 mil cada uma e atualmente avaliadas em US$ 30 milhões.
Dentre as cerca de 4 mil obras que compõem o acervo, estão
também telas de Renoir, Rafael, Goya, Gauguin, Ticiano, Picasso,
Modigliani, Lucas Cranach e Cézanne, entre outros. |
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| continua |
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P.M.
Bardi no vão livre do MASP, 1986
Foto de Juvenal Pereira |
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