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UMA IRMÃ MUITO ESPECIAL

Desde menina, Lina percebia, de alguma maneira, o fascínio da arquitetura, da cenografia e dos figurinos, da arte. Não que ela fosse uma “predestinada” – entendam – ou um “pequeno gênio no berço”: sua infância foi absolutamente normal, caracterizada por aquele acúmulo de experiências de vida e de dificuldades que faziam parte da maioria das famílias italianas daqueles tempos.

Talvez fosse só e simplesmente o reflexo, por assim dizer, das muitas, infinitas artes de nosso pai, Enrico. Monárquico e anticlerical declarado mas, na realidade, com fortes esfumaduras anrquistas, fez de tudo na vida, contanto que esse tudo fosse rigorosamente ligado às fantasias e à sensibilidade: de desenhista a gráfico na “Tipografia Gattei” (a etiqueta da “Violetta di Parma”, por exemplo, é dele), de inventor (vendeu para a Saint-Gobain um sistema de fechadura hermética, com uma bolinha de gude em cima, das garrafas de gasosa), a dono de uma fábrica de brinquedos, de construtor (atividade que desenvolveu em Roma, principalmente no bairro de Testaccio, com o cuidado de dar a cada palacete um pouco de comodidade e um pedacinho de jardim), a pintor. A mente de Lina, todavia, corria e sonhava mais rápido do que os outros e isso criava sempre um pouco de constrangimento para mim e Mariella, nossa prima criada conosco: suas brincadeiras eram sempre mais exclusivas, mais “difíceis”, mais “especiais”. Mesmo se eram as mesmas de todas as meninas daquele tempo: as bonecas, o teatrinho dos títeres ou, até uma simples poltrona que, nas asas da imaginação, transformava-se em proa de navio com destino ao infinito, ou quem sabe que outra coisa. Suas amizades, também eram, todas, de maneira incondicionada e entusiasmada, “especiais”; característica que a-acompanhou ao longo da vida; embora, quase sempre, depois do primeiro momento, por uma mínima esfumadura, sequer alguma indelicadeza, podiam tranformar-se em ferozes e incanceláveis “traições”.

Gostava e não gostava da escola, achando-a talvez apertada e de horizontes limitados e, ela mesma, pouco à vontade: um pouco sem querer, como se dizia então, Lina chegou à Faculdade de Arquitetura pelo caminho mais estreito e menos profundo, aquele do Liceu Artístico, por exemplo. O que significa pouco ou nada.

O primeiro desafio verdadeiro, para Lina, foi na Universidade. Porque, se é verdade que, de um lado, a Itália fascista sonhava com lugares ao sol e impérios “de areia” como a Líbia, do outro, é igualmente verdade que, dentro do mesmo regime, nasciam várias frondas intelectuais, entre as quais a do Modernismo e da Arquitetura Racional, que unia idealmente Terragni e Le Corbusier, Figini e Pollini e Gropius, Sartoris e Mies van der Rohe. Lina, obviamente, apaixonava-se pelo novo que avançava… Moral: sua tese de graduação foi “escandalosa” na época, pois era uma “Maternidade para mães solteiras”, defendida, além do mais, diante de dois expoentes da arquitetura de regime como Giovannoni e Piacentini (Lina teve até de pedir emprestada a roupa de Jovem Fascista, que não tinha, mas que era obrigatória). Curioso, ou quase “premonitório” pensando nessa exposição, que a materialização da tese de doutorado de Lina tenha acontecido – já em tempo de guerra, aqui em Veneza...

Lina mudou-se depois para Milão, “perseguida”, logo depois, pela família toda: Milão ficava, não só em sentido geográfico, mais longe do coração do regime e era um banco de prova, de conhecimento e de experimentação muito mais amplo do que a capital. O encontro com Gio Ponti a atingiu profundamente e disso nasceu uma relação sempre marcada em carinhoso respeito mútuo. Lina trabalhava na revista “Domus” e tinha aberto um escritório, junto com o arquiteto Carlo Pagani, no coração daquilo que hoje é a Milão “chique” e que, naquele tempo, era ainda um centro popular e sugestivo: via Gesù.

Com os grandes bombardeios cada vez mais perto, todos nós abandonamos Milão para a região vizinha a Parma, à exceção de Lina, que quis ficar, a qualquer custo, no apartamento do último andar de Piazza Crispi (hoje Piazza Meda), que, em breve, transformou-se em um reduto de intelectuais vários e espalhados, porém de grande valor, de De Chirico à Frai, a Raffaele Carrieri, entre outros. Com o escritório e a Itália destruídos pelas bombas inglesas, não era possível obviamente,projetar ou construir nada, sequer o próprio amanhã. Lina colaborava com revistas femininas e de todo gênero, sob a amigável proteção de Alberto Mondadori, outro que enxergava sempre mais além e antes do que os outros.

Após a guerra, entre o entusiasmo e a esperança de um mundo verdadeiramente novo, Lina colaborou com Elio Vittorini no diário “Milano Sera” e com Bruno Zevi na revista “A”. Paralelamente, o relacionamento entre Lina e Pietro Maria Bardi - figura controvertida e fascinante –, nascido de uma briga por um desenho rstituído com dobras em uma das muitas colaborações “bélicas” de minha irmã, aprofundou-se até o casamento, em Roma, no Campidoglio. Já há algum tempo posto em purgatório por Mussolini, por algumas divergências sobre e com Achille Starace, Pietro, históriador e aguerrido defensor do Modernismo além de poderoso dono da Galleria Palma, de Roma, Pietro decidiu fazer um périplo pela América Latina, para vender obras da sua galeria romana. Lina o acompanhou naquilo que se revelou uma mudança profunda e radical na vida dos dois.

O Brasil foi um choque violento: tudo que parecia negado e impossível na Europa, ali estava ao alcance das mãos, naquela terra de mil raças onde, sob a calçada, não havia areia mas pedras preciosas. O resto é história: o encontro com Assis Chateaubriand, a idéia e a realização de um Museu de Arte latinoamericano que não ficasse devendo nada àqueles europeus… Como em uma fábula mágica, em rápida seqüência: a revista “Habitat”, o primeiro MASP, na Rua 7 de Abril, o segundo MASP – aquele da Avenida Paulista, com o maior vão livre do mundo -, a experiência da Bahia em estreito contato com a cultura popular, como se Gramsci ou Brecht tivessem nascido no Nordeste, o SESC-Pompéia – o centro de lazer em que qualquer um, em qualquer País, sonharia -, junto com cenografias e figurinos para o teatro e o cinema. Não faltou, naqueles anos formidáveis, tampouco um livro específico de arquitetura, “Contribuição propedêutica ao ensino da teoria da arquitetura”, título pesado mas conteúdo ao modo de Lina, ágil, inteligente e provocatório o quanto basta. Junto com os projetos não realizados – alguns deles estão presentes nesta bela ocasião veneziana -, tudo isso explicou e explica concretamente, se for preciso, sua idéia de arquitetura como ciência social, como arte do homem para o homem. Quer dizer, para a coletividade. É esse o meu pequeno retrato, em poucas linhas e visto “por dentro”, de Lina, uma irmã muito especial. Concluindo, queria só lembrar duas palavras – publicadas na “Folha de São Paulo” – de Mario Botta, “restaurador” da Scala de Milão, que, durante uma recente visita em São Paulo, quando perguntaram-lhe o que ele via de novo na terra de Oscar Niemeyer, Paulo Mendes da Rocha, Rino Levi, os irmãos Roberto, Lúcio Costa, assim respondeu: “Lina Bo Bardi, que os europeus estão descobrindo agora. A arquitetura dela tem um conteúdo social enorme. Ela é muito, muito forte”. Só isso.


Graziella Bo Valentinetti

Exposição Lina Bo Bardi Architteto
Foto de Aline Sultani