CARAMELO, nº 4
São Paulo, 1992
A master is someone who expresses something new; and which others listen to and understand if they can...pardon me, I meant to say, I, I do not consider myself a master...
…Frank Lloyd Wrigth declared many years ago in a London lecture: "Gentlemen, architecture is poetry”. So the answer is yes; architecture is sometimes poetry.
Scarpa, Viena, 16/04/76
Como escrever sobre uma amiga de tantos anos, tão querida e admirada?
AU e Projeto publicaram no final de 91 belíssimos números dedicados inteiramente a ela. Os artigos de Tão Gomes Pinto, em Isto É, de 19/04/89, quando do hapenning-exposição, na FAU; de Geraldo Ferraz, n’O Estado de São Paulo, e de Mino Carta, também em Isto É, resumiram bem, o que se poderia publicar em periódicos.
Felizmente, muito se escreveu sobre Lina. Não importa se houve vulgarização redutora e irreverente ou divulgação de pedaços e frases fora de contexto, confundindo a imagem de uma grande artista, inteligente e veloz, que usava, por necessidade, o paradoxo como forma de voar nos espaços da experiência e do conhecimento.
Veicularam muito uma imagem “do contra”, radical, provocadora, quase rude, mas era como ela mesma gostava de parecer. Frases como “sou stalinista – militarista e antifeminista” ou “detesto Roma” se tornaram marcas suas.
Sem contradizê-los, vejo-a lúcida, exigente, rigorosa, aplicada em tudo e, por isso, radical; mas elegante, generosa e lúdica.
Culta, e portanto desprovida de arrogância, parecia não ter dúvidas, mas perguntava; seu método de conhecer e inventar movia-se na refutação e na contradição, para chegar ao âmago da poesia. Freqüentemente completava uma explicação científica perfeita dizendo ter querido apenas fazer uma “coisa poética”.
Do estudo dos complexos problemas de um projeto à poesia e ao domínio e incorporação adequada das tecnologias avançadas, Lina, digo-o sem receio, foi o maior e mais completo arquiteto brasileiro em seu tempo e insisto no “brasileiro”. Produziu alguns dos mais extraordinários fragmentos urbanos deste século.
Todas as suas poucas obras e desenhos são obras primas, desenvolvidas ao lado de uma ampla atividade intelectual, reflexões e pesquisas sobre o Brasil, tão notáveis como a sua arquitetura, abrangendo gráfica, teatro, cinema, montagens de exposições, entrevistas, seminários, conferências e, às vezes, sua simples presença. Uma cadeira desenhada por Lina é peça de museu. E foram muitas.
Lembrei-me, em Vila Alpina, de meus dois primeiros encontros com Lina, a uma pergunta de Helena Carvalhosa, sobre como a conhecera.
Tinha 18 anos, recém entrado na FAU, quando a vi pela primeira vez, em sua nova casa, nos descampados dos Morumbi. Acompanhava o arquiteto Gio Ponti, seu professor e companheiro de trabalho em Milão, antes da guerra. Desde a escada em granito flexível da entrada, a arquitetura foi uma enorme surpresa. “Vero ascetismo milanese”, alta tecnologia com amor à natureza e ao lugar, móveis, obras de arte e objetos extraordinários, vista da longínqua e verde baixada de Santo Amaro contra o sol razante da tarde. Lina,teria 35 anos, era belíssima. “Fazia o arquiteto” como nunca vira, discreta diante do mestre Ponti, era o foco. Meu italiano familiar, não era suficiente para que captasse todos os lances preciosos daquela brilhante discussão. Saí mudo e anônimo, não a vi por 12 anos.
Creio que já era 1963 quando fui surpreendido por um telefonema muito cerimonioso do “arquiteto Bardi” que pedia para marcar horário para visitar o “arquiteto Guedes”. É dispensável mencionar espanto. Não aceitou que fosse ao seu encontro e veio ver-me em meu escritório. Acabava de chegar de longa permanência em Salvador para concluir o fechamento da estrutura pronta do MASP. Procurava-me para pedir que indicasse arquiteto, ex-aluno, para ajudá-la a desenhar caixilharia e detalhes do museu. (Dias depois indiquei Mayume Souza Lima, que trabalhava comigo desde estagiária e que eu admirava. Mais tarde, em situação idêntica o Marcelo Ferraz para ajudá-la, no SESC Pompéia). Conversamos, longamente, sobre quase tudo. Chegáramos aos detalhes, à dificuldade de conceituar e desenhar os caixilhos do grande vão, problemas e movimentação diferencial, de construção e manutenção, quando, subitamente, me pergunta como os desenharia... Devo ter feito alusão ao fim do racionalismo, como era moda, e ao neo-romantismo italiano de Zevi, Albini, Scarpa, Magistrelli, Gio Colombo, Pomodoro, Sottsass, Farina, Mangiarotti...querendo agradá-la. Lina ficou muito quieta e depois começou a falar baixo e lentamente, como se pensasse alto, flagrada a descoberta, uma frase inesquecível, que reproduzo de memória: “Acho que, não. A sociedade brasileira necessita de um desenho racional, claro e responsável. Penso que a burguesia européia entre guerras, não teve condições de levar a poética do racionalismo às últimas conseqüências”. E assim foi.
Vivia semi-reclusa, num ritmo diário de trabalho que se iniciava às 3 horas da manhã e terminava às 19 horas, e a qualidade do que pensava e sua experiência da comunicação humana construíram pouco a pouco o personagem em que se transformou; apesar do grande senso de humor com que fazia todas as coisas, inclusive as mais sérias, e a maneira como transitava entre paradoxos e contradições, ou por isso mesmo, Lina tornou-se figura proeminente em São Paulo, nos últimos anos da década de 70.
Incomodava-me então a distância que a separava dos arquitetos de São Paulo e do IAB. Um dia alguém fará cuidadosamente essa história, o grande Rino, Cerqueira César, Artigas e Candia; o mais próximo teria sido o Jacob Ruchti.
Lina veio ao Brasil tomado como representação de uma sociedade nova, de um mundo novo, dando as costas a Europa e ao que chamava de “burguesia européia”, aos horrores da guerra onde perdera tantos companheiros da resistência antifascista. Conhecia o país melhor que nós. Era apaixonada pelo Nordeste. Sua exposição “A mão do povo brasileiro”, foi uma aula original e espetacular, que precisa ser recuperada, divulgada, e estudada em suas diversas dimensões.
A propósito, encontramo-nos, por acaso, na Ponte Aérea. Ela ia, a convite do Ministro da Educação, opinar sobre mostra colóquio popular. Pediu-me com tanta insistência que a acompanhasse, parecia tão angustiada, que mudei compromissos para levá-la. Foi recebida com muita festa; assisti o começo e saí. No caminho de volta, contou me que ouvira meia hora de exposições e razões e depois falara de forma contida: “Eu não entendo nada disso. Para mim, arte popular não existe. Povo faz necessidade, coisas relacionadas com a vida”. Silêncio total. Logo depois retirou-se e a exposição abortou. Deveria estar sabendo das dificuldades que teria com o exército, em seguida.
Até 1975 levei, compulsivamente, a ela todas as pessoas que puderam interessa-la: Marcos Winograd e Lala Mendes Mosquera, da Argentina; Van Eyck e Hertzberger, de Amsterdã, com quem dera curso em Buenos Aires, em 1969; Chiara e Ângelo Mangiarotti, de Milão; Nuno Portas e Nuno Teotonio Pereira, de Lisboa; Elie Azagury, Michélle e Hassan Ababou, de Casablanca; Jean-Pierre Halévy, de Paris; Makoto Suzuki, de Tóquio, além de Modesto Carvalhosa, Miguel Pereira, L.P. Conde, M.L., Davies, Freitas, Comas e muitos outros. Recebia-nos com grandes almoços; conversávamos e nos divertíamos durante horas.
Em 1974 Lina foi indiciada pela polícia militar por ter abrigado Marighela. Terminando o inquérito e o longo período de perseguição e angústia, cessado o perigo real, ela ainda muito abatida, leio no Estado de São Paulo lamentável pesquisa de página dupla sobre a arquitetura paulista. Entre as pessoas ouvidas um estudante de 5º ano da FAU que a chamava de estrangeira incapaz de compreender São Paulo e o Brasil criticava grosseiramente o edifício do MASP.
Fui vê-la imediatamente, parecia bem. Queria levá-la daqui. Convidei-a para ir ao Congresso Internacional de Arquitetos de Madrid, que aceitou no ato, estimulada por Bardi, início de uma viagem maravilhosa com muitos amigos, arquiteturas, lugares e assuntos. Foi recebida com jantares e carinho por gente que a via pela primeira vez, discutia seu trabalho e demonstrava conhecê-lo: mestres como Bohigas, Tusquets e Federico Correa, de Barcelona; Pereira e Portas, em Lisboa, recém liberados pelo movimento de abril de 1974, e já deputado e secretário de Estado no governo; longo passeio pelo Marrocos com Azegury e Ababou, que nos hospedaram, presentearam Lina com um anel antigo e a chamavam de Princesa de Marrakesh; finalmente, Paris, onde estivemos com Halévy, Chémétov, Jean Louis Cohen, os arquitetos do IFA e outros. Aí foi a vez de ela levar-me conhecer Milão e sua família, R. Sambonet e G. Dorfles e Roma com Bruno Zevi, seus caminhos de estudante de arquitetura, os monumentos e recantos que desenhara nos anos de escola, tantos lugares. Posso dizer que Lina amava Roma. E também Barcelona. Na noite da chegada ficamos até o amanhecer andando pela cidade gótica e pelas Ramblas.
A volta começa a história do grande sucesso e reconhecimento nacional e internacional de Lina, sobretudo em função da repercussão das obras do MASP e SESC Pompéia. Eu não tinha tanto trabalho, mas encontrara muitos problemas. Fiquei meses sem conseguir vê-la, o que ela não entendia. Telefonava reclamando, dando a maior bronca “Como você pode desaparecer... Depois dessa viagem maravilhosa, tantos dias inteiros juntos, pensei que fossemos ter uma amizade elevada... assim a de Goethe e Stendhal... Por vezes falava com grande solenidade.
Nunca conseguimos de fato fazer um projeto juntos. Tivemos duas tentativas importantes. Convidei-a e ao R. Sambonet, grande amigo de Lina e meu antigo professor de desenho, muito ligado a Aalto e Elisa, para fazermos juntos o concurso do projeto Bicocca, em Milão, 1985. Lina não dormia, ficou muito tensa: lembrava de amigos fuzilados nos muros das fábricas que demolíamos. Não conseguia entrar na urbanização da área industrial. Mas acabou fazendo sob pressão, no último momento, o projeto dos dois principais edifícios administrativos, absolutamente inovadores, alta tecnologia, lindos e lúdicos, nada a ver com o modernismo, nem com o pós-modernismo, nem com o deconstrutivismo. Lina. Surpreendente.
Ao mostrá-lo a mim, às vésperas da entrega, depois de vários dias sem dormir, tinha pequenos papéis desenhados a esferográfica e aquarela, esboços. Ela estava emocionada. Pietro já teria aprovado. Parecia ter receio de que eu não gostasse. A planta era a sombra de uma suástica estraçalhada. Estimulada, produziu mais alguns desenhos coloridos e um texto à mão, extraordinários, e fizemos uma colagem dos originais, como os pensara, sem retoques, compondo uma das pranchas, com tempo ainda de construir uma pequena maquete, para as fotos.
Em 1988 não conseguimos fazer o projeto do Centro Cultural de Lisboa, para o qual havíamos sido convidados juntos.
Nos últimos anos vimo-nos pouco. Ela tinha grandes projetos: na Bahia, o Politeama em Jundiaí, nova sede da Prefeitura de São Paulo e a Vera Cruz. Após o acidente marcáramos passeios, queria almoçar fora – no clube de professores da USP – sair um pouco, mas desmarcava à última hora. Só davam certo as visitas e almoços – também uma arte de Lina – em casa dela – Viva!
Arq. Joaquim Guedes Sobrinho
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